UniRitter se despede do Fashion Revolution com a roda de conversa #Cultura&Sociedade

Evento ocorreu no campus FAPA na manhã do dia 26 de abril

No último dia de participação do curso de Design de Moda da UniRitter no Fashion Revolution no campus FAPA, durante a manhã de 26 de abril, houve uma roda de conversa para debater sobre cultura e sociedade. Apesar de os quatro palestrantes serem de áreas diferentes, eles tinham o mesmo objetivo: debater assuntos emergentes na sociedade, movimentos sociais, imigrantes, indústria mundial da moda e a influência da cultura nas práticas sociais.

A primeira participante da mesa de conversa foi Vanessa Perini, assistente social no Centro de Atendimento ao Migrante (CAM) em Caxias do Sul. Ela relatou um pouco de sua rotina de trabalho com migrantes, trouxe alguns dados sobre migração no Brasil e salientou o crescimento deste índice, o que vem acontecendo desde 2012. A CAM trabalha com ações de inclusão no mundo de trabalho, defesa e garantia de direitos, atendimento jurídico e psicológico, além de ter parcerias com outras associações de imigrantes. “O Rio Grande do Sul é o principal destino de imigrantes. A maioria deles vem da África, América Latina, América Central e Ásia. Na CAM nós trabalhamos com pessoas do Senegal e do Haiti, mas também auxiliamos outros centros que nos procuram por todo o Brasil”, disse Vanessa.

Logo em seguida, Sadine Correia, imigrante de Cabo Verde que mora atualmente no Brasil para ficar perto do filho, contou sobre sua cultura e o preconceito que as pessoas têm com imigrantes. Sadine é formada em Sociologia na Faculdade de Santiago no Cabo Verde e trabalha como educadora na Obra Social Imaculado Coração de Maria. Antes de vir para Porto Alegre, Sadine pesquisou tudo sobre a cidade, e mostrou bom humor ao contar que a primeira coisa que fez ao chegar aqui foi ir na Banca 40 do Mercado Público, um dos pontos mais conhecidos da capital. De acordo com ela, muitas pessoas fazem perguntas desnecessárias e preconceituosas pois não há vontade de pesquisar e saber sobre outra cultura. Um exemplo disso é o turbante, usado por muitos que não sabem o que ele representa. O problema, segundo Sadine, não é usá-lo, mas não saber o significado da peça.

Sadine falou sobre a questão do preconceito, tanto com imigrantes, quanto com moradores de lugares carentes. “As pessoas não têm muito conhecimento, acham que africano só é feliz e colorido, mas ele também é inteligente. Nós falamos inglês, francês e português. Um médico, por exemplo, não sabe nem falar inglês direito e está em um lugar bem melhor que o africano, que está vendendo fone e sendo discriminado por ser negro e pobre. É o mesmo exemplo das vilas: as pessoas não sabem, mas a vila é muito criativa. Elas preferem fechar os olhos e continuarem sendo preconceituosas”, enfatizou. No final de sua fala, Sadine cantou uma música em sua língua nativa, que enaltece a Deus, e todos no local se emocionaram.

Após a  comoção, Bruno Cardoso, graduado em Ciências Sociais na UFRGS, reforçou o que Sadine havia falado sobre a falta de interesse em conhecer outras culturas e deu o exemplo da frase: “Brasileiro é tudo igual”. Segundo ele, a afirmação está errada pois todos são diferentes. Bruno também disse que trazer pessoas de outros países para o Brasil é uma troca que beneficia a todos pois mostra perspectivas diferentes.

Atualmente, Bruno trabalha com um grupo de imigração na UFRGS e é fundador do Pretagô, uma companhia de teatro composta apenas por negros e que debate questões sociais, identidade própria e outros assuntos que não são muito abordados na sociedade. Além de cultura e representatividade, Bruno falou sobre as mudanças que percebeu na cidade. Ele disse que a revolução já está acontecendo, as pessoas reaproveitam e reciclam, mas ainda faltam projetos para dar mais visibilidade para essas ações. Bruno também salientou que a moda não se encerra na questão econômica, ela perpassa várias esferas do ser, é identidade, cultura, é o que todos são.

A última convidada foi Fernanda Pandolfi, jornalista do Grupo RBS e criadora do projeto Ida e Volta. Ela trabalhou durante seis anos na Zero Hora, sendo três como jornalista e outros três como colunista social. Fernanda se viu obrigada a escrever sobre diferenças, mas em um sentido preconceituoso, o qual ela não gostava. Por sentir falta de comunicar e informar, ela se demitiu. Em seguida, Fernanda criou o Ida e Volta, uma plataforma de viagem que visa atuar como um agente de mudanças de pensamento e de vida. Para sustentar a ideia, durante nove meses a jornalista viajou por 37 países. Ela começou por Buenos Aires e Cuba, depois passou pelos Estados Unidos, Europa, África, Ásia e Oceania.

A estrutura de ponta que vivenciou na Europa logo entrou em contraste com a de Zanzibar, na Tasmânia. Na cidade há um museu sobre a história da escravidão onde há fotos que retratam as condições dos escravos e o contexto histórico. Mas o que deixou Fernanda horrorizada foi um grande mapa mostrando os locais que ainda possuem escravidão no mundo. O maior setor de trabalho escravo é o da indústria têxtil e logo em seguida vem o do trabalho infantil. No entanto, muitos desses escravos não sabem que vivenciam esta situação porque, para eles, ser escravo é trabalhar sem remuneração e eles recebem salário, mesmo sendo absurdamente pequeno.

Quando Fernanda chegou na China, sua última parada da viagem, ela se deparou com pessoas fazendo filas para comprar em lojas baratas que fazem uso de trabalho escravo. O país, de acordo com Fernanda, é um dos principais locais  no mundo que realizam trabalho escravo. Ao voltar para o Brasil, ela se livrou de muitas peças de roupa que não a representavam mais por serem fruto de trabalho escravo e não sustentável. Agora ela se sente melhor porque essa experiência mudou muito o jeito dela ver o mundo.

 

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