“Todo mundo perde com o preconceito”, diz Filipe Roloff

Citado entre os 50 futuros líderes LGBT, o Consultor de Sucesso do Cliente na SAP Lab Latin America fala sobre diversidade, inclusão e barreiras no mercado de trabalho

 

A cada 25 horas um LGBT é morto no país.  Em 2017, foram 445 pessoas assassinadas ou que cometeram suicídio por causa da orientação sexual. Centenas de vidas que são encerradas por causa do ódio, preconceito e desinformação. O levantamento é do Grupo Gay da Bahia (GGB), ONG que trabalha há mais de trinta anos com direitos da comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros). Neste número  são incluídos os homicídios de pessoas que tentaram ajudar um homossexual que sofria agressão. O índice não oficial é feito com informações colhidas pelo GGB na internet e por relatos de conhecidos, já que o governo federal não calcula a estatística. Esta taxa de mortalidade, que pode ser ainda maior, é assustadora – e expõe os efeitos colaterais de um sistema que resiste à inclusão.

Desde  2011, alguns direitos foram conquistados. A união civil entre casais homossexuais foi reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal; foi permitido o uso do nome social – que não é oficializado – na carteira de identidade; e o primeiro prefeito assumidamente gay e casado com outro homem foi eleito no estado de São Paulo. Mesmo com estes avanços, o caminho para um país igualitário ainda é longo. Este panorama é retratado por uma fria realidade que obriga, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), 90% das travestis e transexuais a buscarem a sobrevivência na prostituição. O desprezo da família, o abandono da educação e a falta de vagas no mercado de trabalho formal as empurra para a marginalidade.

Filipe Roloff (Ana Carolina/Agência INQ)

Diversidade nas Organizações

No noite de 7 de maio o campus Zona Sul da UniRitter sediou a palestra “Diversidade nas Organizações”, em que o Consultor de Sucesso do Cliente na SAP Labs Latin America, Filipe Roloff, falou sobre inclusão, diversidade, preconceito e delimitação de espaços para minorias nas empresas. Em outubro de 2017, Roloff foi citado entre os 50 futuros líderes LGBT mais influentes do mundo no ranking criado pelo jornal britânico Financial Times em parceria com a ONG Out­standing. A pesquisa celebra executivos que obtém sucesso na carreira e criam espaços de trabalho que dão suporte para pessoas LGBT. Os dados mostrados pelo palestrante indicam que a falta de vagas de destaque e iniciativas que acolham e fortaleçam minorias é resultado de um panorama muito maior. Não apenas a comunidade LGBT sofre com o descaso. De acordo com Roloff, há menos mulheres em cargos de chefia. Além disso, elas trabalham mais horas e recebem salários mais baixos do que homens.

Depois de duas horas de debates e trocas de experiências, Filipe Roloff concedeu uma entrevista exclusiva para a Agência INQ, na qual falou sobre representatividade, mudanças no mercado de trabalho e expectativas para o futuro no meio empresarial.

Ficou claro durante a sua palestra que acolher a diversidade é importante para reduzir o preconceito. Qual é o papel do meio acadêmico para esta desconstrução?

O meio acadêmico tem como papel principal trazer pesquisa, dados, ser base para esse trabalho acontecer. No Brasil a gente tem uma escassez muito grande de pesquisa relacionada à diversidade e à inclusão em si – como acontece essa inclusão, informação em relação ao preconceito e à população LGBT. O meio acadêmico vem como amparo e base para se falar sobre isso dentro de uma empresa.

Em 2017, cerca de 445 LGBTs foram mortos ou cometeram suicídio no Brasil, de acordo com o Grupo Gay da Bahia. Apesar deste dado não ser exato, o que estas mortes revelam sobre o país?

A gente é um país muito preconceituoso. Quando se fala na população LGBT, existe um preconceito muito focado em transexuais e travestis, a população “T”, onde, mais do que a marginalização e o preconceito em si e a discriminação, existe a invisibilização. São pessoas que acabam tendo que procurar uma forma de subsistência nas ruas. Mas a gente está no caminho certo, no sentido de começar a divulgar e falar sobre isso. Existem muitos países onde a propaganda em relação à questão LGBT é crime, por exemplo na Rússia. A gente está muito na frente de outros países. A criminalidade que se traz através desse número, de mais de quatrocentos LGBTs mortos, é o resultado do nosso preconceito baseado em ignorância. A gente vive em uma situação onde, estruturalmente, está se criando pessoas ignorantes, com educação precarizada. Isso é resultado da falta de informação.

Temas muito debatidos na sociedade nos últimos anos são a representatividade, a diversidade e abraçar as diferenças. Que dificuldades as minorias costumam encontrar dentro de uma empresa para criar grupos e espaços para se expressar?

A primeira delas é o convencimento da empresa, quando ainda não existe o trabalho da diversidade. É convencer os acionistas, os altos cargos de gerência, de que é importante trabalhar a diversidade e a inclusão. Às vezes acontece de essas pessoas já estarem conscientizadas, o que é muito bom. Mas ao mesmo tempo, quando se fala em populações pouco representadas, faltam exemplos para essas pessoas se espelharem e conseguirem entender que elas podem ascender a cargos de gerência. Esses grupos de diversidade, tendo suporte de cargos de liderança, ajudam as pessoas a compreenderem que elas não só podem liderar, mas que vão ter suporte para fazer isso.

Já que estamos falando sobre lideranças, o que é preciso para abrir espaço para o surgimento de líderes LGBT e de outras bandeiras da diversidade?

É exatamente o que estamos fazendo para isso acontecer: servindo de exemplo para outras empresas, pessoas que conseguem trabalhar em forma de liderança. Criar líderes é trazer exemplos e mostrar que é possível.

O que mudou nas empresas na questão de representatividade nos últimos cinco anos no Brasil?

O grande momento da diversidade e da inclusão tem sido nos últimos cinco anos. Existiu um começo de trabalho muito forte em 2014, um movimento latino-americano para isso acontecer. O México e outros países começaram a trabalhar a questão LGBT. Com relação ao Brasil, esse trabalho também aconteceu nestes meados.  Mas nos últimos dois anos, onde começou a se criar grupos, as empresas começaram a virar líderes de inclusão. O Pride@SAP Brasil é um exemplo de diversidade LGBT para a SAP no mundo inteiro, mesmo que tenha sido criado depois. Tem uma coisa que a gente precisa aproveitar do brasileiro: a capacidade de se engajar nas causas sociais.

Durante a palestra, você trouxe dados que mostram a disparidade entre homens e mulheres no mercado de trabalho: elas trabalham mais – incluindo o trabalho doméstico, cuidar dos filhos, e ganham menos. No caso da inclusão e diversidade, quais são suas expectativas para o mercado dentro de cinco ou dez anos?

Nos próximos dois anos a gente vai estar falando disso de uma forma bem mais ampla, conectando diversidade e inclusão à inovação, atravessando o muro de que diversidade é só para criar um ambiente inclusivo na empresa. O entendimento da diversidade e o trabalho da inclusão ultrapassa as fronteiras da empresa, faz a comunidade mudar.  A gente também muda os serviços das empresas, faz com que eles sejam voltados para a sustentabilidade das relações humanas.

Quais os prejuízos que o preconceito, seja ele qual for, pode acarretar nos meios empresarial e social?

A empresa perde talentos.  Eu sou um caso que passei por algumas empresas e não via esse ambiente inclusivo, saí e fui para uma empresa que era mais inclusiva. Não se retém talentos, as pessoas não dão o seu melhor e gastam muito tempo passando por situações de preconceito quando poderiam estar investindo na empresa. Há questões psicológicas das pessoas que sofrem preconceito, existe uma alta taxa de suicídio de pessoas LGBT. Principalmente da população de transexuais e travestis, que têm dificuldades de encontrar emprego por causa de uma escolaridade mais baixa porque os pais expulsam de casa. Existe todo um ciclo de preconceito que faz estas pessoas serem excluídas da sociedade, desde quando elas são pequenas, até conseguirem entender a sua identidade e sexualidade de uma forma mais ampla. Toda a questão psicológica é muito forte. O preconceito atinge não só as minorias, mas também as populações mais vulneráveis: no momento em que se exclui, as populações marginalizadas tendem a criar uma zona de insegurança. A segurança diminui quando a gente não consegue ter uma sociedade inclusiva.

 O Dia Internacional Contra a LGBTfobia é celebrado em 17 de maio. Você gostaria de deixar alguma mensagem para quem pratica ou sofre com o preconceito?

As pessoas que são preconceituosas, ou que têm privilégios e continuam com o preconceito, acabam perdendo também. Seja por insegurança, diminuição de empregos – há menos empregos quando tem menos pessoas produzindo, menos empresas sendo criadas, menos pessoas fazendo parte do mercado de trabalho. Não há só a questão ética e moral, mas o fato de que todo mundo perde com o preconceito.