Seminário debate cultura negra no Rio Grande do Sul

Com tema “Referências negras no século XXI”, evento aconteceu dia 10 de outubro no campus FAPA

A partir da percepção de que o debate em relação ao movimento negro necessita de mais espaço no âmbito institucional, foi realizado, na quarta-feira (10/10), no campus Fapa, o seminário “A Geografia da Cultura Negra no RS”. Em sua segunda edição, o evento abordou as “Referências pra o século XXI”. Coordenado pela doutoranda em Letras pela UniRitter e mestre em Geografia pela UFRGS, Letícia Barbosa, o seminário debateu aspectos da cultura negra no Rio Grande do Sul nas diversas áreas e registrou pesquisas que mapeiam a identidade negra no estado. O projeto visa auxiliar na criação de referências para futuros debates na constituição de uma pedagogia pluricultural e inclusiva nos currículos escolares.

Parceria entre a UniRitter e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o seminário teve a presença de oito palestrantes, além da apresentação oral de trabalhos inscritos com os seguintes eixos temáticos: Literatura de Autoria Negra; Territorialidade e Saber; Cultura e Comunidades; O Negro na Mídia e Representatividade; Identidade Territorial e Ações Afirmativas.

No campus FAPA, as atividades aconteceram na manhã de 10 de outubro, no auditório do prédio 6. O geólogo e artista Rommulo Vieira Conceição abriu o evento com o tema “O negro nas artes visuais”, no qual analisou o espaço que o negro ocupa nas exposições de artes brasileiras através de questões como o uso do termo afrodescendente, o que é ser negro no Brasil e o lugar do negro nas artes visuais.

O artista disse que é preciso abandonar a palavra afrodescendente como forma de identificação da população negra, pois, de acordo com ele, a nomenclatura não condiz com as relações sociais brasileiras e está relacionada à esfera social norte americana. “É preciso assumir a palavra ‘negro’, a maioria de nós não foi criado com matrizes africanas”, explicou Rommulo.

Contextualizando o espaço do negro nas artes visuais no Brasil, Rommulo convidou dois artistas negros: Priscila Rezende, do Espírito Santo, e Dircei Prates, do Rio Grande do Sul. Na performance “Bombril”, de 2015, Priscila faz um questionamento acerca da aparência e padrões impostos ao cabelo afro ao usar seu próprio cabelo para esfregar panelas.

Segundo Rommulo,  a encenação demonstra a apropriação direta dos estereótipos raciais que comparam o cabelo de negros e negras à palha de aço. Para ele, o negro deve assumir uma posição de “cobrador” com a sociedade brasileira. “Você me deve!”, disse Rommulo, ao expressar que assim como os judeus fizeram após o Holocausto, o negro precisa abandonar a posição de vítima.

O fotógrafo Dircei, expressou em suas fotos diferentes visões do que é arte e como o negro está ligado a isto – em sua série fotográfica “Júpiter, Netuno e Platão”, retrata o corpo negro como objeto, da mesma forma que, diversas vezes, é representado na sociedade.

Para fechar a palestra, Rommulo apresentou suas instalações e fotografias, sempre ligadas à noção de espaço, posições e ideias de lugar. “Apropriação do espaço é saber o lugar em que se está. São conceitos relativos”, concluiu o artista.

No segundo momento da manhã, a coordenadora do seminário, Letícia Barbosa, trouxe “A história a ser contada”, uma palestra que buscou documentar a história do movimento negro em Porto Alegre a partir de 1978 com a fundação do Grupo Cultural Razão Negra. Letícia, que é integrante do grupo desde a adolescência, contou que o grupo se constituiu em um estado com fraca bagagem histórica da etnia negra.

A geógrafa ainda relembrou o artista Oliveira Silveira, um dos grandes ativistas dentro do grupo, que chegou a ter mais de 50 pessoas. Em uma época de ditadura, as expressões culturais e os espaços de convivência construídos pelo grupo ajudou a formar indivíduos conscientes de suas próprias histórias e deveres como cidadãos negros do Rio Grande do Sul.

A programação ocorreu também dia 9 e 11 no Campus do Vale (UFRGS). Por lá, assuntos como a percepção da identidade negra, a corporalidade negra feminina em Porto Alegre e a importância da presença dos negros nos meios de comunicação fomentaram discussões sobre a representatividade do negro no estado.

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