Relações Internacionais propõe olhar diferenciado sobre imigrantes e refugiados

Professores, alunos e convidados participaram de palestra do NAARI no campus FAPA

Às 19h do dia 22 de setembro o auditório do Prédio 6 do campus FAPA da UniRitter começou a ser preenchido por diversas pessoas que aguardavam o evento do Núcleo de Apoio e Assessoria a Refugiados e Imigrantes (NAARI). Fruto do curso de Relações Internacionais, o NAARI foi criado com o objetivo de fornecer suporte operacional e jurídico para imigrantes e refugiados em Porto Alegre e região.

A composição da bancada era diversa: o venezuelano refugiado Blas David Pacheco Davila; a professora de Direito da UniRitter, Tatiana Squeff; a docente de Relações Internacionais, Marina de Almeida Rosa; o estudante de Jornalismo, Andrew Fischer; o presidente da Associação dos Senegaleses de Porto Alegre, Mor Ndiaye; e o integrante da Associação, Serigne Bamba Toure.

A visão dos imigrantes senegaleses foi compartilhada por Ndiaye e Toure, que falaram sobre as dificuldades, desafios e vitórias de vir de outro país para construir vida nova no Brasil. “O Brasil tem coisas boas e coisas ruins.  A documentação é um problema, mas o povo é um ponto positivo”, respondeu o presidente da Associação dos Senegaleses ao ser questionado sobre o que gosta no país.

Com um sotaque marcante, os dois responderam às perguntas dos alunos que estavam curiosos sobre variados aspectos da vinda dos senegaleses para cá.  Durante cerca de uma hora, a professora Tatiana esclareceu conceitos da imigração, falou sobre os motivos que poderiam levar uma pessoa a mudar-se de cidade, estado, país ou continente e apresentou emendas da lei de imigração, uma delas anula a palavra “estrangeiro”.

Além das questões jurídicas, a professora de Direito apresentou dados relevantes sobre o assunto: “90% dos imigrantes vem ao Brasil para trabalhar e 65% dos brasileiros estão aptos para o trabalho”, explicou. Para ela, é equivocado dizer que os imigrantes “roubam” vagas de trabalho e reforçou que faltam políticas públicas que ofereçam empregos para todos. Marina mediou a mesa, estimulou os alunos a questionarem os membros da bancada e ofereceu chimarrão aos convidados, uma bebida típica do Rio Grande do Sul, mas que foi aceita de boa vontade pelos senegaleses.

A professora passou o microfone para Davila, que partilhou a experiência de morar na Venezuela. “Eu vejo as pessoas concordando aqui com o socialismo na Venezuela, mas elas não sabem como é”. O venezuelano contou que a situação está ruim tanto na cidade quanto no campo e que é preciso ficar horas numa fila para comprar um pacote de farinha que custa caro, sendo que o salário mínimo do país é de cerca de R$ 90. O jovem cursou dois semestres de Psicologia na Venezuela, porém trancou a matrícula por causa da alta inflação que fez o valor da mensalidade aumentar em 600 vezes. Davila ficou surpreso com a variedade de produtos que são encontrados nos mercados brasileiro e agradeceu ao país que o acolheu.

O estudante de Jornalismo foi o último a se apresentar na noite de sexta-feira. Fischer e seus colegas da disciplina de Revista integraram a equipe que foi coordenada pela professora de Jornalismo Mariana Oselame. O grupo deu cor e vida para a Forasteiros, revista que abraçou a imigração como tema e foi publicada no primeiro semestre de 2017 na versão digital e impressa. O aluno falou sobre todo o processo de produção do material, desde a seleção do tema até as saídas de campo nas quais fotos e histórias de imigrantes foram registradas. “A gente finge que não vê os imigrantes que estão no centro de Porto Alegre, mas eles estão lá. Participar da revista me proporcionou um olhar mais humano”, disse Fischer ao falar sobre o que aprendeu com a experiência.

Apesar de cada um dos presentes na bancada terem voz distinta, a fala dos convidados da noite foi homogênea e complementar. Num ano em que cerca de 4.147 imigrantes morreram e 22 milhões de pessoas estão refugiadas, com o auxílio de dados e relatos, a iniciativa do NAARI possibilitou aos universitários a construção de um olhar crítico e humano sobre o tema.

Evento também ocorreu na Zona Sul

Um dia antes da palestra realizada no campus Fapa, o evento que debateu a situação dos imigrantes e refugiados também ocorreu no auditório Master da Zona Sul. A aluna Shállon Teobaldo foi a responsável por apresentar o projeto da revista Forasteiros. “Mais do que compartilhar o projeto da revista, que foi criada justamente com o objetivo de dar voz aos imigrantes, participar do debate me ensinou muito mais do que eu podia imaginar. Ouvir eles compartilhando sobre as dificuldades, o preconceito e, mesmo assim, dizerem que se sentem acolhidos aqui, me fez abrir ainda mais os olhos para esta causa”, afirmou a aluna, destacando a participação dos imigrantes senegalenes Serigne Bamba Toure e Omar Mourid.

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