Nos bastidores da notícia

Aluna de Jornalismo, Andreza Ferraz conta como visitou a redação do Profissão Repórter em São Paulo

Leitura obrigatória para futuros jornalistas, Abusado foi o livro que deu origem à realização do sonho de conhecer a redação do Profissão Repórter

Ser fã do Caco Barcellos é uma das maiores sortes da minha vida. Muito antes de ingressar na UniRitter eu já admirava o trabalho dele (mesmo sem entender muito o que realmente era jornalismo). Logo no segundo semestre da faculdade, já mais por dentro da profissão, fiz um trabalho proposto pela Mariana Oselame na disciplina de Gêneros e Linguagens Jornalísticas. Era uma palestra no estilo TED. Tínhamos que escolher um livro-reportagem de uma lista de vários considerados clássicos do jornalismo. Abusado, O Dono do Morro Santa Marta era uma das indicações. Escolhi na hora só porque era do Caco Barcellos. Mas lembro de ter reclamado bastante com a Oselame sobre a quantidade de páginas: quase seiscentas. Nem imaginaria que este livro-reportagem seria, em pouco tempo, um caminho para o primeiro passo de um sonho.

Encontro com Caco Barcellos

Dias após apresentar o trabalho, ainda impactada pelo livro, encontrei o Caco Barcellos em Porto Alegre. Foi no final de 2016. Eu tinha ido até o Hotel Radisson encontrar um amigo e dei de cara com ele lá. Não tive dúvida: fui lá conversar. Graças ao livro que eu tinha lido naquele semestre, tive assunto para falar com meu ídolo. Até hoje a Oselame faz questão de me atucanar lembrando que eu reclamei quando o livro foi indicado, mas se não fosse a leitura eu não teria muito o que falar com o Caco.

Conversamos por pouco tempo sobre o Abusado, o meu carinho por ele e o jornalismo. Gravei um vídeo de 30 segundos pedindo que ele me esperasse para realizar o sonho de trabalhar no Profissão Repórter. Ele brincou: “Vou esperar você se formar. Vai aparecer lá (em São Paulo) com um documentário, uma super reportagem. E quem sabe um dia nós trabalhamos juntos”. Neste momento o meu emocional foi ao ápice da felicidade. Antes de ir embora, ele pediu que eu anotasse o seu e-mail para que futuramente pudesse enviar algum material da faculdade. Foi simpático pra caramba. Anotei, mas nunca enviei nada, é claro.

Presente de Natal

Na véspera do Natal de 2017, o Silvio, meu amigo da Intercap, postou uma foto na Planet Ball: ele, Caco e um senhor desconhecido por mim.

Nenele, Silvio e Caco

Imediatamente enviei uma mensagem avisando que estava indo para a quadra de futebol ver o Caco. Nem pensei no que diria quando o visse. Foi então que o Silvio me falou que o Caco havia ido embora há 30 minutos, e eu decidi usar aquele e-mail que estava no meu bloco de notas. Foi um e-mail engraçado. Eu disse pro Caco que queria vê-lo para lhe dar um abraço (finalizar o ano da melhor maneira possível) e ganhar um autógrafo no meu livro do Profissão Repórter. Enviei sem nenhuma expectativa de resposta.

Contei pra Oselame sobre o quase encontro com o Caco na Planet. E ela, que segue me atucanando com a história da reclamação sobre o tamanho do livro e blábláblá, me botou pilha para ir atrás dele. No dia 25 pela manhã, eu e o Bruno (vulgo Silva, meu melhor amigo – sou muito louca e preciso de alguém consciente por perto), fomos tentar encontrar o Caquinho na Vidal de Negreiros, rua em que ele morava aqui em Porto Alegre, e onde a sua mãe mora até hoje. Bati de casa em casa, e nada dele. Até que uma hora, de tanto eu gritar “Paulo Berg” – era o único nome que eu tinha de referência; segundo o Silvio, é nesse lugar que o grupo de amigos do Caco se reúne – um senhor (ainda dormindo) saiu na porta para saber o que eu queria. Era o Nenele, o senhor que estava na foto do Silvio no Facebook. Ele é o melhor amigo do Caco.

Reencontrando Caco Barcellos

Logo de cara o Nenele me desanimou dizendo que o Caco tinha ido para São Paulo às 8h. Mesmo assim conversamos bastante. Ele prometeu me ajudar a criar algum contato com o ídolo. Agradeci e nos despedimos. Voltei para casa cabisbaixa com a Jurupinga, o livro do Profissão Repórter e o exemplar do Unipautas que eu entregaria para ele (preciosa dica da Oselame, que disse para eu mostrar para o Caco a matéria com que ganhei o Prêmio Inquieto).

Mas aí veio a reviravolta. Caco Barcellos RESPONDEU o e-mail um dia depois. Disse que se lembrava do nosso encontro no hotel e me deu o seu Whats App para conversamos na terça-feira, às 16h. Nem dormi de tanta ansiedade, muito menos trabalhei normalmente. Imagina que loucura trocar mensagens com quem tu tanto admira?

Enviei uma mensagem às 15h47min (não aguentei esperar até às 16h).

“‘Oi, Caco, tudo na paz? Se estiver ocupado te chamo depois.”

Ele respondeu dizendo que pretendia dar tchau para o Nenele e um abraço em mim, mas como sua mãe não estava muito bem, ele ficaria com ela. Dei a ideia de encontrá-lo no aeroporto. Ele topou. Fui nervosa e voltei feliz da vida! Consegui entregar o jornal da faculdade com a minha matéria premiada, ganhei o autógrafo no livro, dei pra ele uma caixa de Ferrero Rocher (ideia da Oselame) e um saquinho de bala de dentaduras (ideia minha. Ele riu).

Nosso papo durou no máximo 15min por causa do horário do voo. E entre tantas coisas que eu falei sem parar, o mais importante foi a resposta dele ao escutar o meu pedido para conhecer a redação do Profissão Repórter. Disse que sim com a maior simplicidade do mundo. Mas para acontecer a visita, o programa precisava voltar de férias. Eles voltariam no final de janeiro ou início de fevereiro. Combinamos algumas possíveis datas e mantivemos contato.

Nos bastidores da notícia

Fui para São Paulo no dia do aniversário do Caco, 5 de março (teve parabéns e bolo na redação). Que sorte!

Fui muito bem recebida por toda equipe. E enquanto ele não chegava na redação, aproveitei para conhecer todo o processo das reportagens e os estúdios dos outros programas da Globo (Conversa com Bial, Jornal da Globo, Jornal Hoje, Globo News, Fantástico, etc).

Geralmente a reunião de pauta acontece na segunda-feira. Os repórteres, editores, chefe de reportagem e o Caco discutem qual será o assunto do próximo programa. Quanto mais dados a pessoa leva para discussão, mais credibilidade e atenção o assunto ganha na redação. Depois da pauta definida, os repórteres chegam num consenso sobre qual perfil se encaixa mais na reportagem. Então começam a produzir, entram em contato com as fontes e vão para a rua fazer a reportagem (aliás, segundo o Caco, quando tem muita gente na redação é sinal de que o trabalho não está rendendo, porque lugar de repórter é na rua). Quando voltam da captação de imagens, os repórteres vão direto para ilha de edição, para fazer o primeiro corte na matéria.

Depois desse primeiro corte se trabalha o texto ao lado do editor de texto e, após essa etapa, o material é enviado para ser finalizado na ilha de edição. Antes de o Caco Barcellos dar o aval final sobre o conteúdo, a Janaina Pirola, editora-chefe do programa, verifica se realmente está tudo certo. Só depois deste processo a matéria é enviada para a direção da Globo no Rio de Janeiro. Lá eles decidem se o programa vai ao ar ou não.

Vida longa ao Profissão Repórter

Júlio Inácio é funcionário da Globo há 19 anos, e atua desde o início do programa, em 2006, na equipe de edição das matérias do Profissão Repórter que é formada por ele, Rogério Gottardi, Felipe Ferreira e Rafael Larangeira.
Ao falar sobre Caco, Júlio não esconde sua admiração pelo jornalista. “Eu costumo dizer: o Caco tem sessenta e poucos anos de vida e trezentos de experiência, é um absurdo. É um jeito de fazer jornalismo que é puro, é real. O investigativo é o lado que ele mais gosta de fazer, e traz o que é verdade. Não existe jornalismo falso com o Caco. Quando ele vai para rua, o jeito que ele aborda as pessoas é tão simples, que as pessoas se abrem para ele. Eu já trabalhei com vários repórteres que ao chegar querem produzir, fazer tudo bonitinho, e isso quebra o entrevistado. Quando isso acontece, você perde totalmente o link com o cara. O Caco não. Por conta da empatia, ele chega e parece que a pessoa abraça ele, com uma conexão muito rápida, conseguindo extrair da pessoa o que ele quer.” Todos tratam o Caco como um professor, sem exceções. É bonito de ver a relação diária deles. Parece ser o melhor trabalho do mundo.

No segundo dia acompanhei a repórter Sara Pavani em uma audiência. A matéria não era dela, quem estava acompanhando este caso há meses era outra repórter, mas como ela não estava na redação, a Sara a substituiu. Era um caso sobre tráfico de drogas. O juiz marcou a audiência seguinte para o mês de maio, e não deixou a equipe captar imagens dentro da sala. Foi uma baita experiência. Ver de perto os dois lados de um caso tão real assim é impactante.

Neste mesmo dia, ao almoçar com a Sara num dos restaurantes da Globo, ela me contou que na sua primeira reportagem pelo programa, fora de São Paulo, o Caco foi junto. Gravaram por muitas horas e estavam muito cansados. Voltando para São Paulo com o carro da empresa, Sara já pensava, bastante cansada, como iria para casa (uber ou táxi) após entregar os equipamentos no setor de logística. Num certo momento Caco pediu para o motorista parar no acostamento. Ela não entendeu e perguntou aonde ele estava indo. O jornalista respondeu, com naturalidade e calma, que pegaria um metrô para chegar em casa. Sara ficou boquiaberta dizendo para si mesma: “Se o Caco vai embora de metrô, quem sou eu para reclamar de algo?”. É de grande importância para ele ter este contato verdadeiro com o público. Desta forma humana e inteligente, muitas vezes surgem as melhores histórias a serem contadas.

Redação do Profissão Repórter (Andreza Ferraz/Arquivo pessoal)

Outro fato que me deixou extremamente encantada quanto à postura do Caco foi a ligação do repórter Estevan Muniz, que estava em Boa Vista acompanhando uma família de retirantes. Eles estavam na estrada pedindo carona até Manaus. O motivo da ligação era para saber a opinião do Caco sobre a situação que todos estavam passando por lá, pois a família entrevistada não tinha dinheiro para o seu sustento, nem como se locomover e muito menos onde dormir. Enfim, não existia o básico para eles. Contavam apenas com a solidariedade das pessoas para terem carona e se alimentarem. E por mais árdua que parecia estar sendo essa reportagem, o que mais sensibilizou Estevan foi o fato de uma menina de quatro anos estar passando por tudo isso junto dos pais. Essa mistura de sensibilidade e empatia em se colocar no lugar do outro é que dá significado ao jornalismo. Caco o orientou a ficar com a família para viver o que eles estavam vivendo, sentir o que eles estavam sentindo.

Difícil descrever o que foram esses dois dias de puro aprendizado em São Paulo. Em poucas horas de visita é possível enxergar o principal objetivo do programa: mostrar sempre em três ângulos/olhares sobre uma mesma matéria o que vivemos diariamente como sociedade. Além de exibir o que hoje nenhum programa jornalístico exibe, o Caco Barcellos faz questão de que os repórteres passem pela mesma situação que o entrevistado está passando, que eles vivam aquilo com muita intensidade, independentemente da dificuldade do fato.

Só pode contar uma história quem vive ela. Quem está no fato. Quem sente a situação. Quem escuta mais do que pergunta. Tudo isso com um limite necessário prezando a segurança do repórter e cuidado para nunca aparecer mais que a fonte que está tendo sua história relatada.

Acredito que para qualquer estudante de jornalismo há uma “ilusão” ou “deslumbramento” sobre a ideia de trabalhar na Globo. Percebe-se que para quem trabalha no Profissão Repórter ter fama não é o foco. A missão deles é mostrar diferentes realidades que valem a pena serem contadas. Cumprindo essa missão com êxito, o reconhecimento profissional surge como consequência. Escutei que “quem tá lá, não quer sair. E quem saiu, quer voltar” em tom de brincadeira. Caquinho disse que a reportagem apaixona, que a verdade está na rua. Deve ser por isso que ninguém quer sair dos bastidores da notícia e dos desafios da reportagem.

Redação do Profissão Repórter (Andreza Ferraz/Arquivo pessoal)