“Não é fácil para um gay enfrentar tudo isso”, diz Éderson Ferreira

Estudante da Uergs desenvolve projeto de combate à LGBTfobia


“Desde a época da escola sofria bullying. Me chamavam de gordo e gay. Quando entrei na universidade achei que ia vivenciar tudo novamente”, conta Éderson Ferreira, estudante de Gestão Ambiental da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs). O universitário poderia ser apenas mais um homossexual que sofre preconceito todos os dias no Brasil, país que mais mata LGBTs no mundo. Esta quinta-feira (17) é o Dia Internacional Contra a LGBTfobia, que lembra a importância de abordar este assunto em uma realidade na qual  46 países, entre os 111 avaliados, apresentaram queda na aceitação social dos LGBTs, segundo estudo que verificou dados entre 1981 e 2014. Porém, Éderson não deixou que a ignorância sufocasse a sua voz no combate à LGBTfobia. Hoje, o universitário lidera um projeto na instituição de ensino que tem missão de debater, conscientizar e diminuir a violência contra LGBTs. A violência que matou mais de quatrocentos LGBTs em 2017 no Brasil ultrapassou os muros da universidade e, aliada à escassez de dados oficiais sobre a realidade desta parcela da população, exige o surgimento de iniciativas para mudar este panorama. Éderson, felizmente, não está sozinho nesta luta. Assim como o estudante, a ONG Somos luta diariamente pelos direitos e empoderamento da comunidade LGBT.

Coordenador geral do DCE da Uergs, Éderson Ferreira (Facebook)

Éderson ingressou no ensino superior em 2014, naquela época ainda não havia falado abertamente com a família sobre sua sexualidade. Apesar de ser alvo de piada de outros universitários, ele tinha medo de denunciar os agressores. No entanto, isso mudou quando foi morar com dois amigos héteros, o que resultou numa reviravolta na história. Certo dia, quando estava na sala do Diretório Central de Estudantes (DCE) da Uergs, um aluno insinuou que Éderson estava mantendo relações sexuais com os amigos com os quais morava. “Foi o limite para tudo. Eu denunciei o agressor. Foi feita uma sindicância para apurar os fatos. Foi comprovado”, relata. O acusado disse que é bissexual e por isso não poderia ter cometido LGBTfobia, mas sem um argumento válido, não pode se aproximar do aluno.

A necessidade de ações contra a violência e conquista de direitos dentro do espaço acadêmico apenas reflete o que acontece do lado de fora da universidade. Publicado em 2016, o Relatório da Violência Homofóbica aponta a carência de dados sobre a comunidade LGBT no Brasil. O próprio documento deixa claro que “a falta de um marco legal que regulamente a punição de atos discriminatórios contra a população LGBT aprofunda a dificuldade de realização de diagnósticos estatísticos desta natureza.”

O direito de casar e à adoção, o uso do nome social – o que não está na identidade -, e a representatividade  na mídia foram conquistados nos últimos vinte anos. No entanto, de acordo com a antropóloga e professora associada da Escola de Serviço Social da UFRJ, Andrea Moraes, o caminho ainda é longo. “Estamos longe de ser uma sociedade aberta à diversidade sexual, embora não sejamos como outros países em que há discriminação oficial com pena de reclusão para a prática da homossexualidade. Precisamos continuar na luta pelo reconhecimento da comunidade LGBT”, explica.

Mesmo participando ativamente da militância, Éderson ainda teve que lidar com xingamentos. Enquanto se preparava para uma reunião acadêmica, novamente ouviu comentário preconceituoso. “Não é fácil para um gay, estudante de universidade pública conquistar uma vaga no Sisu e enfrentar tudo isso dentro de uma universidade”, conta. Apesar de situações como esta, o aluno encontrou pessoas engajadas na causa LGBT, se tornou coordenador geral do Diretório Central dos Estudantes da Uergs e está à frente de uma iniciativa para combater o preconceito. Coordenado pela professora Martha Narvaz, o projeto Educação em Direitos Humanos: Uergs na Luta Contra a LGBTfobia visa minimizar e combater efetivamente ações como as que Éderson vivenciou. Na próxima segunda-feira (21), entre 15h e 16h, o projeto será apresentado durante a Semana Acadêmica da Administração, no Campus Central da Uergs, no bairro Agronomia, em Porto Alegre. No evento, o universitário irá falar sobre a ação, tão necessária para que os LGBTs, que já sofrem fora do campus, possam andar livres nos corredores da universidade, sem medo da violência.

Se dentro da universidade os alunos precisam tomar para si a causa LGBT, fora dos portões da instituição a luta continua com as ONGs. Segundo a professora da UFRJ, as organizações ativistas denunciam constantemente casos de violação de direitos humanos da comunidade LGBT. “A Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) apresentou em janeiro de 2018 um levantamento do número de pessoas trans assassinadas em 2017. O número é de 179 assassinatos no ano passado. É um número elevado”, diz Andrea.

Com a falta de informações que figuram a realidade da comunidade LGBT no Brasil, outras instituições precisam tomar a frente da geração de dados para a compreensão desta população específica. Um número de pessoas, ainda não oficialmente contabilizado, precisa enfrentar batalhas diárias para ter direitos que para outros é oferecido facilmente, passa por humilhações e ameaças, comete suicídio e é morto. A violência existe dentro das casas, nas ruas e nas universidades, mas há ausência de dados coletados por organizações oficiais  e poder público. O levantamento do número de homicídios e suicídios, por exemplo,é feito pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), uma ONG que há 38 anos luta por direitos LGBT. A ONG elaborou o Quem a Transfobia Matou Hoje?, fonte de informações de homicídios e suicídios motivados por crimes de orientação sexual. Vale explicar que os dados da ONG são colhidos na internet e por meio de denúncias, ou seja, o número pode ser ainda maior do que se tem registrado. Segundo o GGB, até o dia 17 de maio de 2018, hoje, 153 LGBTs foram mortos no país, seis no Rio Grande do Sul.

Em Porto Alegre existe a  ONG Somos, que  iniciou trajetória há dezesseis anos na capital. Desde aquela época busca os direitos LGBT e realiza ações com base nos direitos humanos, movimentando áreas da educação e saúde, aliadas à comunicação e arte. Contribuindo para a aquisição de dados e suprindo uma necessidade das instituições oficiais, em parceria com o Fundo Brasil de Direitos Humanos, a ONG está desenvolvendo o Projeto Passagens – Rede de Apoio a LGBTs nas Prisões, que tem o objetivo de mapear a vivência das pessoas LGBT nos presídios brasileiros. Ainda em fase inicial, o projeto será implantado durante cerca de dezoito meses. A ONG também desenvolve uma iniciativa com o Ministério da Saúde. Juntamente com artistas de cinco regiões do país, tem a missão de elaborar produções artísticas para informar sobre HIV/Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis.

Coordenador geral da ONG Somos, Gabriel Galli (Andrew Fischer/Agência INQ)

Além do projeto, uma das funções que a ONG executa é o controle social, que se trata do monitoramento das ações de forças políticas. Segundo o coordenador geral do Somos, Gabriel Galli, acompanhar este processo é essencial. “Se o estado ficar atuando sozinho, ele vai fazer o que quiser. O papel dos movimentos sociais é ficar acompanhando o que o estado está fazendo e criticar, propor soluções, fazer auditoria”, diz. Há algum tempo a ONG exercia atividades dentro de escolas, porém, a perda de recursos resultou na redução dos projetos ativos.

Lutar por direitos é um ato político e a política é ferramenta essencial para atingir igualdade ou, ao menos, reduzir a desigualdade. Porém, faltam parlamentares que lutem e sejam figuras que representem a comunidade LGBT. No Congresso Nacional, por exemplo, entre os 513 deputados, apenas um é assumidamente gay. Em abril, a Aliança Nacional LGBTI concluiu um levantamento das candidaturas LGBTI+ e aliados no Brasil. De acordo com a pesquisa, 115 políticos de vinte partidos são aliados, entre eles, 60% são candidatos ao cargo de deputado estadual. Somente um pretende concorrer à presidência. O coordenador geral do Somos comenta a ausência de políticos que se identifiquem com a causa LGBT. “Nas câmaras de vereadores se começa a ter um movimento que é um pouco diferente, mas está demorando muito. Cada vez que não se tem uma pessoa que entende a pauta, os problemas que a gente passa, há um problema de representatividade”, diz.

Enquanto há falta de políticas públicas, há sobra de ignorância. “A educação precisar ser um dos métodos que a gente utiliza para fazer alguma mudança social”, comenta Galli. O Brasil é palco de um cenário confuso. Ao mesmo tempo que há maior liberdade para falar sobre sexualidade, existe uma ascensão do conservadorismo, que é intolerante e não suporta a diversidade. “Estamos entrando numa nova fase no país. Até recentemente, criaram-se canais institucionais importantes para ouvir as demandas da população LGBT. Muitos desses canais já ruíram. Não sei o que acontecerá em um futuro próximo”, fala Andrea.

Mesmo com esta incerteza, Éderson se mantém firme. “Ninguém é obrigado a gostar, mas eles têm que ter respeito e a universidade precisa fazer ações e políticas institucionais para a permanência dos LGBTs”, diz. Seja nas universidades ou nas ruas, a caminhada em direção a um país mais consciente precisa continuar.  O que se espera no final do arco-íris, símbolo da bandeira LGBT, não são as riquezas, como dizem as lendas, mas uma realidade mais justa, em que o gênero e a orientação sexual não sejam razões para cometer atrocidades.