Militante do movimento negro é homenageada em evento literário

Escritora e poetisa, Conceição Evaristo participou da abertura do FestiPoa Literária em 2 de maio

Conceição Evaristo, escritora do livro “Olhos d’água” – uma das leituras obrigatórias do vestibular 2018 da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) – esteve presente no Salão de Atos da UFRGS, no dia 2 de maio, para a abertura da 11ª edição do FestiPoa Literária. Durante cinco dias o festival ofereceu programação artística e cultural, debates e reuniu diversos autores. Junto com Conceição, também estiveram presentes na abertura outras duas escritoras: Jarid Arraes e Djamila Ribeiro. Racismo, machismo, política e literatura estiveram entre os temas abordados no evento.

No primeiro momento o debate foi mediado por Jeferson Tenório, mestre em Literaturas Luso-africanas e primeiro cotista a se formar na UFRGS. O palco foi dividido entre a doutora em Licenciatura Comparada pela Universidade Federal de Fluminense, escritora, poetisa, romancista e militante do movimento negro, Conceição Evaristo, e Jarid Arraes, escritora, poeta e cordelista (gênero literário popular escrito frequentemente na forma rimada, originado em relatos).

As escritoras falaram sobre como a literatura faz parte de suas vidas e de que maneira elas utilizam da escrita para trazer questões que permeiam sua vivência e de outras mulheres negras. “O mercado editorial, o mundo da literatura, é  um mercado machista, racista e transfóbico. Com todos esses círculos fechados, com todas as portas fechadas”, ressaltou Jarid. Ao ser questionada sobre a importância da presença de mulheres negras na escrita e ser uma das principais indicadas para a Academia Brasileira de Letras, Conceição respondeu: “Esse momento é muito significativo porque a academia vai tomar consciência que existe uma escrita de mulheres negras. Então claro que eu quero estar.”

A segunda parte do evento foi uma conversa entre a pós-graduanda em Direito Público pela Universidade do Vale dos Sinos, Winnie Bueno, e a pesquisadora e mestre em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo, Djamila Ribeiro. O debate circundou os livros “O que é lugar de fala?” e “Quem tem medo do feminismo negro?”, escritos por Djamila. O primeiro aborda o direito à voz na sociedade – regrada pela branquitude, masculinidade e heterossexualidade, de acordo com a obra. O segundo se trata de um ensaio autobiográfico e coletânea de artigos publicados pela autora no blog da revista Carta Capital entre 2014 e 2017, traz citações de autoras negras, debate cotas raciais e as origens do feminismo negro nos Estados Unidos e no Brasil.

Djamila falou sobre a dificuldade de lançar seus textos e relatou que depois de obter sucesso, as editoras que negaram suas produções queriam as publicar. Barreiras como esta também foram mencionadas por Conceição e Jarid. As escritoras enfatizaram o obstáculo de ser negra e mulher no mundo da literatura. O evento também contou com a participação de duas slammers – poetisas do slam, campeonato de poesia das periferias, Cristal Rocha e Morghana Benevenuto, que trouxeram poemas de suas autorias. As escritoras se emocionaram e falaram da importância de jovens negras começarem desde de cedo a terem voz.