Matheus Felipe: a sorte de ser jornalista

Professor fala sobre a trajetória profissional e os desafios enfrentados pelo caminho

A gratidão é movida pelas memórias afetivas. Quem lembra com riqueza de detalhes cada momento importante da vida e cita com emoção os nomes de quem lhe estendeu a mão certamente passa adiante o legado do bem. Este é Matheus Felipe, professor de Jornalismo da FACS que transmite sensibilidade e coragem aos alunos que inspira. A naturalidade e a entrega com que trabalha com a comunicação já lhe garantiram prêmios, reconhecimento e a reciprocidade na confiança dos alunos.

O entusiasta das pautas investigativas sentencia logo no início da conversa com a reportagem: “Eu já era um inquieto. Hoje essa palavra faz muito sentido pra mim”, afirma Matheus. Sua história na comunicação começa no Ensino Médio, produzindo o primeiro jornal da escola onde estudava. Mesmo passando por tropeços, como o golpe que a turma levou de um homem que, interessado no sucesso da publicação que teve 3 mil exemplares impressos, identificou-se como assessor de um deputado e disse que gostaria de apoiar o projeto. No dia em que o projeto seria apresentado à Assembleia Legislativa, ele sumiu. A decepção e o senso de justiça foram decisivos. Matheus começou a investigar a história e descobriu que ele já havia aplicado vários golpes na cidade. “Eu sempre agradeço muito a esse homem. Ali eu despertei. Foi por isso que aconteceu que eu descobri que através do jornalismo era possível transformar a vida das pessoas.”

Depois de formar-se como técnico em informática e ter passado pela Petrobrás como estagiário, Matheus entrou no curso de jornalismo da Unisinos em 2004. Foi logo no primeiro semestre que, caminhando pelos corredores, ouviu a rádio da universidade e imediatamente foi até lá perguntar como poderia contribuir. Assim, assumiu um programa semanal. Na mesma época, uma amiga o indicou para trabalhar em um site de entretenimento. E lá foi Matheus abraçar mais um desafio. “Eu fui redator, repórter, editor, fotógrafo e marketing. Era maravilhoso, eu fazia de tudo e ali aprendi muito”, lembra aos risos dos momentos de entrevistas com celebridades e eventos inesquecíveis.

Um desses eventos foi a festa de final de ano da Bandeirantes. Lá, Matheus conheceu o também professor da FACS, Leandro Olegário. “Na época ele era repórter na Band e também cobria o evento. Trocamos contato e pedi que ele me avisasse caso surgisse uma vaga na emissora.” Porém essa não foi a única surpresa da noite. Enquanto fotografava o evento, o comunicador Leandro Meneghetti faz um convite inusitado. “Ele disse pra eu largar a câmera com meu chefe e sentar pra jantar pois ele havia reparado que estava há horas trabalhando. Foi incrível sentei na mesa com grandes nomes da comunicação do RS”.

A vaga para a TV na Bandeirantes surgiu, mas Matheus não passou. Na rádio também não havia vagas. Matheus deixou de sair para uma viagem que já havia pago para estar na entrevista, que não resultou em uma oportunidade naquele momento, mas também não foi em vão. O jornalista Caco da Motta convidou Matheus para passar um dia acompanhando a rotina da rádio. “É importante lembrarmos sempre disso: a gente não pode desistir nunca”, sentencia Matheus, que assumiu a produção de um programa de rádio emergencialmente em sua visita. “O produtor tinha faltado naquele dia e eles questionaram se eu tinha experiência. Na verdade eu só tinha passado pela rádio na Unisinos e nem tinha cursado a disciplina de rádio, mas aceitei o desafio porque eu queria muito aprender”, lembra.

Pouco tempo depois Matheus foi chamado novamente às pressas para assumir a produção da primeira transmissão de futebol da Band FM e, ao final da transmissão, recebeu a notícia que era o novo estagiário emissora. Nesse dia Matheus pegou um táxi às pressas e sem dinheiro, mas foi acolhido pelo taxista que entendeu a causa, o levou ao seu destino e desejou que o jovem tivesse boa sorte e conseguisse o emprego que sonhava.

Os fatos inusitados não param aí. As sementes plantadas por Matheus sempre foram a do entusiasmo e comprometimento. A colheita é certa, mas a safra de boas notícias é que sempre surpreenderam Matheus. “Eu não sei te dizer o que aconteceu comigo. Eu sempre estive na hora certa e no lugar certo”, relata. E assim foi quando atendeu o telefone da redação onde uma fonte tinha uma denuncia de poluição na Lagoa Dos Patos. Ele prontamente passou tudo para a chefe de reportagem da TV que refutou a pauta afirmando que a tal fonte nunca tinha provas e que ninguém mais acolhia seus relatos. O faro de Matheus o instigou a investigar por conta própria por quase um mês a denúncia. Fez fotos, colheu amostras, laudos, e mais 70 páginas de documentos do Ministério Público que a própria fonte, antes suspeita, havia lhe mandado. Quando o iniciante repórter mostrou o material para os jornalistas, a série de 4 reportagens foi para o ar imediatamente. Matheus conta que sofreu represálias do dono da empresa poluidora que teve de pagar multas e manter benefícios sociais em contrapartida. Com essa matéria Matheus ganhou o Prêmio Ari de Jornalismo. “Sempre trabalhei dobrado. Isso eu falo para os meus alunos. Temos que nos dedicar às pautas que acreditamos, mesmo que seja preciso fazer jornada de trabalho dupla”.

Sua ascensão profissional o levou para a Rádio Guaíba, indicado pelo âncora Felipe Vieira, de quem produziu o programa desde que entrou na Band. “Ele me indicou para trabalhar na Guaíba dizendo que eu já havia cumprido meu papel e ainda brincou comigo que eu deveria agradecê-lo por isso e que eu não cometesse erros no novo trabalho”, lembra, aos risos. Quando mudou de emissora, Matheus deixou de ser estagiário e passou a ter um salário melhor. “Meu primeiro salário foi inteiro nos ingressos para o show do Roberto Carlos, para os meus pais assistirem bem na frente. Eu precisava retribuir a dedicação deles”, conta Matheus, lembrando com carinho da família.

Em 2008 entrou na TV Record e logo assumiu mais um desafio surpreendente. Um conflito entre manifestantes havia deixado feridos e a reportagem precisava falar com as vítimas usando câmera escondida. “Na época o pessoal tinha medo e não sabia mexer com o equipamento. Eu disse que faria a matéria. Saí com a caneta (a câmera simulava uma caneta) enrolada no jornal e entrei no HPS. Quando voltei para a redação e vi aqueles vídeos todos carregando no computador foi uma sensação incrível”, descreve Matheus, sobre o momento decisivo para sua carreira investigativa.

Os sete anos seguintes foram produzindo matérias para todos os programas da casa, em especial para o Balanço Geral, programa de grande audiência no estado. Depois de tantas experiências, Matheus pode perceber que nem todas as partes do processo de comunicação estavam de acordo com o que ele acreditava. “Eu percebi que estava me frustrando e não conseguiria mudar tudo sozinho. Precisava de pessoas para fazer a diferença. Foi aí que me dei conta que nos bancos das universidades estavam os estudantes ávidos por novidades”, relata. Matheus ingressou na especialização em Comunicação Empresarial na UniRitter onde em pouco tempo começou a lecionar. “Eu sempre digo pros alunos que o jornalismo é a prática diária e a universidade é o lugar para praticar diariamente”, fala Matheus, deixando uma mensagem de incentivo aos alunos. “Se deu certo dessa forma pra mim, vai dar certo para vocês, então proponham ideias”, provoca ele.

O professor lamenta o pouco tempo e pede para encerrarmos a entrevista pois não quer chegar atrasado na aula. “Eu sinto frio na barriga até hoje quando vou entrar na sala. Preciso saber se a aula rendeu, se os alunos aprenderam. Fico mal se percebo que alguma coisa não saiu como eles esperavam”, confessa, enquanto recolhe seu material. Ao se despedir, ele reforça o carinho pela profissão e por sua trajetória: “Esse medo nos dá respeito pela profissão. Enquanto sentirmos isso, estaremos no caminho certo”. No corredor, a caminho dos elevadores que dão acesso à saída do prédio, o incansável profissional ainda deixa uma dica de livro que ele diz se identificar pois resume a carreira cheia de surpresas. “Sorte e Arte, de José Roberto Alencar. Nesse livro ele fala sobre isso, até onde é sorte e até onde é arte? No meu caso, ate onde é sorte ser chamado para um importante entrevista ate onde foi arte deixar de viajar para participar dela?!”, questiona-se. A resposta esta na oscilação das duas condições, que Matheus soube conduzir em sua trajetória. A prova está no passo apressado do professor ansioso por encontrar sua turma. E também na confiança dos alunos que encontram em Matheus o entusiasmo para encarar a sorte de terem escolhido a arte do jornalismo como profissão.

Confira imagens da carreira de Matheus:

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RAIO-X
Nome completo: Matheus Felipe da Silva
Data de nascimento: 03/05/1987
Onde nasceu: Osório – RS
Em que ano e onde se formou em Jornalismo: 2010/2, na Unisinos
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0182819793218683
Onde já trabalhou: Petrobras, Revista MIX, Rádio Centro 3 – Unisinos, Rádio Bandeirantes, Rádio BandNews, Rádio Guaíba, TV Record, Frigorífico Borrússia e UniRitter
Em que ano ingressou na FACS: 2016
Prêmios conquistados:
2016: Primeiro Lugar – Prêmio Inquieto de Jornalismo – Categoria Radiojornalismo – Orientador
2016: Primeiro Lugar – Prêmio Inquieto de Jornalismo – Categoria Documentário – Orientador
2016: Segundo Lugar – Prêmio Inquieto de Jornalismo – Categoria Documentário – Orientador
2016: Terceiro Lugar – Prêmio de Jornalismo Movimento de Justiça e Direitos Humanos – Categoria Telejornalismo – Infância roubada e ameaçada.
2014: Primeiro Lugar – Prêmio ARI de Jornalismo – Categoria Telejornalismo – Sabrina: As pernas de um anjo.
2009: Primeiro Lugar – Prêmio CDL de Jornalismo – Categoria Radiojornalismo – A luta contra a pirataria.
2008: Primeiro Lugar – Prêmio UNIRÁDIO – FM CULTURA – Categoria Radiojornalismo – A Guerra dos Mundos
2007: Primeiro Lugar – Prêmio ARI de Jornalismo – Categoria Radiojornalismo – A natureza pede socorro.
2007: Primeiro Lugar – Prêmio de Jornalismo Ministério Público – Categoria Radiojornalismo
Qual foi o principal momento como jornalista? Foram tantos que seria impossível descrever aqui. Acredito que o principal momento do jornalista é sempre quando conseguimos contar a História como ela merece ser contada.
Uma frase: No final, somos nós contra nós mesmos.
Um filme: Spotlight – Segredos Revelados
Uma viagem: Ao passado
Uma comida: Churrasco
Um sonho: Um mundo melhor, mais justo e humano.
O que mais gosta de fazer nas horas de folga: Ficar com meu filho e com minha família.
Ser professor na FACS é… Um desafio, uma felicidade e uma satisfação.