Leitura crítica: uma ferramenta indispensável para a compreensão dos fatos na era da pós-verdade

Doutor em Linguística, Adail Sobral fala sobre a importância de se analisar criticamente as informações que vêm da mídia

Professor Adail Sobral

Os tempos modernos são de pós-verdade e relativismo, dois conceitos que têm ganhado força e firmado raízes na realidade nos últimos anos. Eleita a palavra do ano em 2016 pelo Dicionário Oxford, pós-verdade se refere a “circunstâncias nas quais os fatos têm menos influência em moldar a opinião pública do que o apelo emocional e a crença pessoal”. A pós-verdade não é algo verídico, mas sim um perigoso jogo de significados no qual vale mais a interpretação pessoal do que a verdade em si.

É neste contexto de variáveis da informação, de redes sociais e de notícias duvidosas que a leitura crítica se torna uma importante ferramenta para a compreensão efetiva dos acontecimentos. Doutor em Linguística pela PUC-SP e professor adjunto do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Pelotas, Adail Sobral é especialista em leitura crítica. O professor foi o convidado da Aula Inaugural do Programa de Pós-Graduação em Letras da UniRitter em setembro e, dias depois, concedeu essa entrevista exclusiva para a Agência INQ.

A leitura crítica é frequentemente abordada nas suas palestras. Você poderia explicar melhor o tema?

A leitura que eu chamo de crítica é não acreditar em tudo que se lê, achar que a leitura imediata já resolveu o problema e fez perceber tudo. É não pensar que qualquer instância que fale é verdadeira em si, pensar que ela não tem nenhum ponto de vista. Todo mundo tem uma opinião, inclusive a pessoa que está lendo. E isso não é uma coisa ruim. O erro começa quando o ponto de vista começa a ser escondido. A leitura crítica é uma leitura desconfiada, é não acreditar naquilo que se está vendo imediatamente, mas tentar verificar o contexto, os elementos mais amplos, com quem aquele discurso está conversando.

A interpretação é uma das características da leitura crítica. As instituições de ensino enfrentam dificuldades neste aspecto?

Eu dei aula durante bastante tempo num curso de Jornalismo. Um dos trabalhos que eu dava para os alunos era escrever sobre um tema no qual eu pedia que colocassem as verdadeiras posições deles. Até aí tudo bem, todos se saíam muito bem, o problema era quando eu fazia o segundo exercício. Os alunos tinham que ler e comparar quatro textos. Eles até conseguiam dar a opinião, mas havia uma dificuldade em ler. Ou eles davam uma versão que era mais opinião do que o que os textos diziam ou eles repetiam os textos. Isso me levou a pensar que o problema não era de produção textual, o problema é a leitura. A dificuldade do aluno era entender os pontos de vista do outro e fazer uma espécie de síntese daquilo que a pessoa disse e tentar discutir. Na universidade a gente reduziu a leitura a uma busca de informações e deu a falsa impressão ao aluno de que quando eu escolho um texto, eu concordo ele. Eu posso pegar um texto de uma pessoa com a qual eu não concordo com o objetivo de que o aluno conheça aquele ponto de vista. Até para ele compreender porque sou contra.

E o que fazer para mudar esta situação?

Todo mundo tem um ponto de vista, uma ideologia, todo mundo pensa de uma certa maneira. Neste sentido, discutir se é certo ou errado não interessa. O que importa é que haja o confronto de ideias. Tem que aprofundar a leitura de cada coisa, ler a partir do nosso conhecimento de mundo e ver o ponto de vista do outro e tentar discutir com ele.

Neste contexto de pós-verdade que vivemos no século XXI, qual a importância da leitura crítica?

Interpretar e duvidar sempre. Nunca aceitar nada como verdade parcial ou absoluta.  Se a gente for pensar existem duas verdades. As verdades absolutas, as da ciência; e as verdades parciais, que não são universais e se aplicam somente a um grupo. Por isso a pós-verdade é algo complicado porque esta ideia acaba com o fato. Fatos não fundamentados são a própria definição da pós-verdade. Se são fatos, eles têm que ser fundamentados, quando se propõe isso, não se sabe o que está propondo. Como se diz que não há uma verdade para tudo em todos os cantos, então inventaram que não existe nenhuma verdade. Ou seja, a gente saiu do absolutismo da verdade única e caiu no relativismo. A leitura crítica é algo trabalhoso, mas eu acho que é a única alternativa para  a compreensão da vida pessoal, política e econômica.

Que papel a mídia exerce na construção crítica e quais reflexões o leitor deve fazer para se certificar de que uma determinada informação é verdadeira?

É imprescindível perceber que há interesses envolvidos em qualquer coisa que se diz. Às vezes a gente vê certas notícias que saem exatamente iguais em dez lugares diferentes. E isso é espantoso. Dificilmente dez redatores diferentes vão dizer a mesma notícia. A não ser que eles tenham recebido um release pronto. As próprias capas de jornais são feitas para induzir a uma definição. Lembro de uma capa impressionante que queria prejudicar uma candidata à prefeita, na mesma época que alguém tinha tropeçado e caído. Um avião também caiu neste mesmo período. A Folha de São Paulo fez uma capa sobre as quedas e no meio colocou a candidata, que também estava caindo. Isso é muito interessante porque se tu não for analista, não for treinado pra desconfiar, pode ver aquilo e achar normal, mas por dentro fica aquela mensagem de que a candidata está caindo.

Além do jornal, a leitura crítica deveria ser aplicada em outros meios para que o consumo das mídias seja adequado?

Exatamente. Em tudo. Eu gosto de ver que algumas propagandas são objetos de rejeição pelo público e há uma série de reações. Outra questão importante é a que dizem que o professor está doutrinando os alunos. A maioria trabalha com a perspectiva crítica, de que não se pode acreditar em tudo a qualquer momento e que há alguns valores que devem ser preservados, como liberdade de expressão, a democracia em geral, o direito de escolha. A gente não pode estar exposto a qualquer grupo que diz o que é arte e o que não é arte. Todas estas coisas que estão acontecendo me parecem fruto de falta de leitura crítica.

Em 2016 a editora Sextante lançou a quarta edição do “Retratos da Leitura no Brasil” e alguns dados da publicação dizem que 84% dos leitores são estudantes, 82% são do ensino superior e 76% são da classe A. Com base nestas informações e nos teus estudos, pode se dizer que muitas vezes a leitura é elitizada?

A escola brasileira foi feita para a elite. Por isso essa dificuldade quando começou a entrar um novo contingente de elite. Mas embora estejam dando muito mais oportunidade de leitura para a classe A, esta classe também não sabe fazer leitura crítica. Eles também acreditam em certas coisas e vão perpetuando isso. Hoje em dia tem analfabeto funcional, há 25 anos existia o analfabeto propriamente dito. Eu também acho a internet muito interessante porque faz muito mais gente ler, muitas vezes leem errado, mas pelo menos estão lendo mais ao invés de estarem só assistindo televisão, atividade que nos deixa passivos.

Qual é a importância da leitura na estruturação do ser humano como um todo?

Estudos cognitivos mostram que as crianças estimuladas a ler desde cedo, serão mais competentes na vida, sendo até cidadãos melhores porque terão a perspectiva de conhecer a diversidade, o outro, maneiras distintas de pensamento. Estas crianças vão perceber os nuances de que tudo é diverso, que não há um padrão único.

Para finalizar a nossa entrevista, tem alguma frase que represente o que é a leitura para você? 

A leitura só se completa quando há uma compreensão em que o leitor vê o outro e a si mesmo numa relação construtiva e crítica.