Aula inaugural do curso de Relações Internacionais aborda gênero na contemporaneidade

Evento teve participação da professora Carmen Hein e da cônsul dos Estados Unidos em Porto Alegre, Julia Harlan

TEXTO | Júlia Barth
FOTOS | Natália Tudela

É uma questão de democracia: o principal desafio das mulheres de hoje é superar a desigualdade em espaços de debate majoritariamente masculinos e construir um governo representativo. Bastante atual, a discussão esteve em pauta na aula inaugural do curso de Relações Internacionais, quinta-feira (23/08), no campus Zona Sul. Com o tema “Os desafios contemporâneos das mulheres e dos estudos de gênero e as Relações Internacionais”, a aula foi ministrada pela diplomata e cônsul dos Estados Unidos em Porto Alegre, Julia Harlan, e pela professora de Direito e Mestrado na UniRitter, Carmen Hein de Campos. Entre os assuntos debatidos estiveram a construção de uma relação internacional para o crescimento participativo da mulher na sociedade, a baixa representatividade feminina nos órgãos de poder brasileiro e os direitos humanos das mulheres.

A cônsul iniciou a aula apresentando a relação entre os governos brasileiro a americano para o enfrentamento das desigualdades de gênero. De acordo com ela, o consulado dos Estados Unidos no Brasil vem criando uma série de iniciativas com o objetivo de fortalecer a relação entre os países e aproximar a mulher brasileira do campo diplomático. Entre os programas promovidos pelo consulado, conforme Julia, está o Jovens Embaixadores, de 2015. A iniciativa teve como alvo alunas e alunos brasileiros que são exemplos em suas comunidades. “A desigualdade de gênero gera problemas em todo mundo”, disse a cônsul, referindo-se a crises econômicas em países nos quais as mulheres não têm espaço no mercado de trabalho.

Julia também falou sobre a visita aos municípios gaúchos para mapeamento de mulheres em posições de empoderamento. “Para nós é muito importante conhecer a realidade de mulheres de diferentes regiões, para ofertamos oportunidades de trabalhar em conjunto com essas mulheres que já são empoderadas e as que estão nesse processo”, destacou a cônsul.

A segunda palestrante da noite, a professora Carmen Hein, começou com uma questão muito pertinente na discussão dos direitos das mulheres no Brasil: “Por que projetos que envolvem o direito das mulheres são decididos por homens?”. A pergunta serve para refletir sobre a baixa representatividade feminina nos órgãos de decisão no país e como isso impacta nas relações de poder entre homens e mulheres. Carmen observou a questão como um problema da democracia brasileira: de acordo com ela, o debate sobre a representação feminina na política começou tarde. A doutora em Direito explicou que até os anos 60 se pensava o espaço público como sendo um espaço “de homem”, enquanto a esfera doméstica/privada era “de mulher” – ideia que reforçava, por exemplo, o estereótipo da dona de casa. Ela também ressaltou que a inclusão das mulheres negras nesse debate foi ainda mais tardia. “Não foi possível, ainda, pensar igualitariamente”, concluiu.

No âmbito dos direitos das mulheres a discussão se transformou em números. Carmen apresentou índices do Fórum Brasileiro de Segurança Pública: só em 2017 foram 12 mulheres mortas, a cada dia, no Brasil. A doutora citou casos emblemáticos como o de Maria da Penha e de Tatiane da Silva Santos. No Brasil, segundo a professora, existe uma resistência para se cumprir tratados e diretrizes de direitos humanos em casos envolvendo mulheres. “O direito penal não discute sobre o estupro das mulheres, por exemplo. Não faz parte do mundo jurídico, mas faz parte da vida real”, disse.

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