A solidão disfarçada pelas redes sociais

Como a tecnologia vem destruindo a privacidade e trazendo problemas sociais 

Neste exato minuto, um terço da população global está em contato virtual em alguma rede social no mundo. Esses são os dados de um estudo realizado recentemente pelo eMarketer, empresa focada em pesquisas de mercado (com tendências relacionadas ao marketing digital, mídia e comércio), durante os primeiros meses de 2017. Os números refletem 2,46 bilhões de pessoas que já utilizam os serviços destas plataformas de mídia no planeta.

Fonte: Digital in 2017 – South America

O aumento expressivo de usuários ativos em redes sociais pode representar alguns pontos negativos: essas plataformas digitais podem influenciar no modo como nossa sociedade se comporta. Seguindo essa linha de raciocínio, o Facebook atualmente é a maior mídia digital utilizada: cerca de 1,94 bilhões de pessoas usam o serviço mensalmente. Hoje, as publicações realizadas neste site podem moldar rapidamente a opinião pública, por meio de compartilhamento extremamente veloz de informação, o que está causando uma verdadeira revolução.

Entre setembro de 2013 a fevereiro de 2014, o Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (Cetic) realizou uma pesquisa através de visitas a 16 mil residências em 350 cidades do Brasil, e constatou que a internet é uma ferramenta fundamental para as pessoas, apesar de não estar disponível para boa parte da população brasileira (pelo menos 70,5 milhões de brasileiros não têm acesso a internet). Ainda de acordo com a pesquisa da Cetic, apesar de o país enfrentar uma série de problemas, a internet vem ganhando espaço. Mais de 50% dos brasileiros acessam a rede por meio dos aparelhos móveis, numa média diária de 4 horas conectados, sendo que neste levantamento a grande maioria é somente para o uso das redes sociais.

Um exemplo deste contexto é o estudante Hychard Oliveira, 20 anos, que reconhece usar de forma exagerada as redes. “Uso todas as redes sociais que conheço, pois facilita o contato com as pessoas a minha volta, notícias sobre o bairro, de uma forma geral encontro um jeito de me entreter e matar tempo. Acompanho pelo menos 6 horas diárias as mídias sociais,” comenta. Sua mãe, Aline Dutra, de 37 anos, que também é uma usuária assídua das redes sociais, explica que o convívio familiar é afetado quando o jovem está on-line. “Meu filho, quando se trata de Whatsapp, por exemplo, perde totalmente o foco do que estava conversando, ou mesmo fazendo, isso dificulta o contato entre a gente diariamente,” conclui.

Um dos públicos mais presentes digitalmente, os brasileiros são também os que mais sofrem com a dependência digital. Este transtorno é semelhante ao vício de entorpecentes. E, quanto maior a dependência, pior fica a relação.

Limitando o tempo em sites para ganhar saúde mental

A depressão é um distúrbio que pode ser desencadeado por inúmeras razões, seja nervosismo, solidão, estresse, má alimentação ou mesmo a falta de atividades físicas. Atualmente a doença afeta cerca de 18% da população global e 5,8% dos brasileiros. O assunto ganhou notoriedade recentemente, no primeiro semestre deste ano, quando estreou a série “13 Reasons Why”, na Netflix (maior serviços vídeos online no mundo), que narra a história de uma estudante que cometeu suicídio e deixou uma caixa de fitas cassetes, onde relata treze motivo pelas quais ela tirou sua própria vida.

Isso reflete a importância de discutirmos com mais frequência sobre a doença. A depressão é uma luta diária que muitas pessoas enfrentam, e a compreensão é o primeiro passo para ajudar quem lida com esse tipo de sentimento. A nossa equipe conversou com a psicóloga Paula Cristina Schavinski de Souza, especialista em Avaliação Psicológica, que esclareceu que nem sempre existe o caso de socialização, como o de Hychard e sua mãe Aline, devido ao uso indiscriminado das redes.

Ela afirma que deixar essas relações de lado e focar em si próprio, ou na popularidade digital que cada um tem, pode causar prejuízos extremos, como, por exemplo, o isolamento ou a depressão. “Esse mundo virtual faz com que essa pessoa tenha uma visão ilusória da realidade, pois ela passa a acreditar que tem muitos amigos, que todos os vazios são preenchidos. Porém, assim que sai do computador, o sentimento de solidão volta a existir e ela se percebe sozinha novamente, o que ocasiona um sofrimento maior ainda podendo vir a intensificar ainda mais os sintomas da depressão,” alerta.

Outra situação relevante é que passar horas nas redes faz com que você aprecie as informações vividas por seus amigos como a ida a bons restaurantes, as viagens habituais a lugares nobres ou os momentos da última festa para a qual você não foi convidado, por exemplo. Porém, ser exposto somente a essas referências lhe dá a impressão de que “a grama do vizinho é mais verde” – e isso é mais um fator que pode te fazer mal.

“Esses indivíduos buscam na internet um refúgio para os seus problemas, pois tem muita dificuldade de se relacionar, e o mundo virtual proporciona várias coisas que eles não conseguiriam obter no mundo real, como por exemplo a quantidade de amigos que conseguem fazer, o reconhecimento em suas publicações, atenção. Isso tudo vai fazendo com que se sintam importantes, aceitos e amados, o que vai ocasionar na busca cada vez maior por essa sensação prazerosa, podendo vir a se viciar nessa forma de se relacionar”, diz a psicóloga. Existem casos, segundo Paula, em que se cria uma espécie de obsessão em que o indivíduo busca constante aprovação das demais – o que é conquistado nas redes sociais.

O Brasil é o país com maior prevalência de depressão na América Latina: são cerca de 13 milhões de pessoas. Também somos recordistas mundiais na dominância de transtornos de ansiedade, que podem ser causados pelo mau uso das redes sociais. Os números refletem que há 18,6 milhões de pessoas (9,3% da população nacional) nessa condição. Estima-se que a depressão afete 4,4% da população mundial, cerca de 322 milhões de pessoas, 18% a mais que há 10 anos atrás.

Um exemplo que ilustra bem este cenário é a história do estudante de Psicologia Andrey Amaral, que sofreu por dois anos os problemas relacionados à depressão. Andrey, que é homossexual, diz que a orientação sexual influenciou nesse processo. “Eu não aguentava mais me esconder e tinha muito medo das consequências que isso poderia ter. Pensava que se eu contasse para os meus pais teria de morar fora, que eles não me aceitariam. É tipo um beco sem saída, em que eu sentia que não havia por onde prosseguir. E voltar seria algo ainda pior”, afirma.

Quando o assunto é o estado com o maior número de pessoas que sofrem de depressão, o Rio Grande do Sul aparece no topo da lista (13,2%), seguido por Santa Catarina (12,9%) e Paraná (11,7). Ou seja, a Região Sul do país é a mais afetada pela doença.

Andrey, gaúcho natural de Guaíba, afirmou ainda que as mídias sociais contribuíram negativamente em seu quadro depressivo. O suicídio, para ele, era um pensamento diário. “Eu repetia ‘espero que alguém me mate’ todos os dias, porque eu não tive coragem para tentar o suicídio, mas pensei muito nisso, então esperava que alguém fizesse isso por mim”, comenta.

O estudante é só uma das 11,5 milhões de vítimas deste mal no Brasil. Felizmente Andrey não entrou nos números de vítimas que morreram por suicídio: 788 mil pessoas, sendo essa uma das 20 maiores causas de morte do ano de 2015 no país (dados da OMS). A pesquisa foi além, e confirmou que a faixa etária em que mais ocorre o pensamento de se matar, e a coragem de tirar a própria vida, acontece entre jovens de 15 a 29 anos. Rapazes como o universitário Andrey.

“É importante que os familiares verifiquem o grau de prejuízo que essa dependência da internet pode estar causando tanto na vida social quanto na familiar ou profissional dessa pessoa, e se for o caso ajudá-la a buscar um psicólogo que vai avaliar melhor a situação e indicar o tratamento mais adequado”, conclui Paula de Souza sobre como as famílias podem ajudar na prevenção desses transtornos. Apesar de as redes sociais muitas vezes serem usadas como uma ferramenta para manter contato com amigos ou uma forma de entretenimento no circuito social, geralmente, no quadro destes pacientes, elas são utilizadas para manter o controle constante sobre as outras pessoas ou para promover certa autoimagem, podendo acarretar em efeitos negativos como ciúmes, sentimentos errados de superioridade ou a tão temida depressão.

Outro dado alarmante relacionado a problemas de saúde causados pelo uso equivocado das redes sociais é o aumento de risco de obesidade. Em pesquisa recente feita pela OMS, foi constatado que a obesidade, fator de risco como diabetes, problemas ortopédicos, doenças do coração e alguns tipos de câncer, são questões de saúde que amadurecem com muita rapidez no cenário mundial. A pesquisa afirmou ainda que quase 2,2 bilhões de pessoas estão acima do peso ou obesos, o que representa em números 30% da população global.

Fontes: ABESO e ONU Brasil

Em entrevista concedida durante o segundo semestre deste ano para nossa reportagem, a nutricionista Sheila Pereira, especialista em atendimento nutricional voltado à reeducação alimentar com ênfase em mudança de comportamento alimentar, nos esclareceu que cada vez mais os meios eletrônicos estão afetando os grupos de pessoas que sofrem com os males da obesidade. “Em primeiro lugar pela propaganda exorbitante dos meios eletrônicos sobre os alimentos. É muita oferta de alimentos calóricos. Em segundo lugar pelas inúmeras ofertas de tratamentos que as redes sociais acabam oferecendo, com processos milagrosos de emagrecimento”, comenta. Ela acrescenta que a única forma real e efetiva de emagrecimento é através da transformação da mente, mudando os hábitos alimentares e iniciando práticas de exercícios físicos.

Este problema, além de afetar todo o sistema de saúde, vai ainda danificar um dos pontos mais fortes e mais importantes para a criação de um ser adulto com força para aguentar a vida: a autoestima. Um exemplo referente a jovens que sofrem com essa dificuldade é o estudante do segundo ano do ensino médio, Gabriel De Lucca, que explicou à nossa equipe que com sua autoestima realmente baixa ficou complicado fazer amizades ou manter a socialização em um nível saudável. Gabriel nos explicou ainda que a genética ajudou, mas ele realmente sempre foi sedentário. “Meus pais e avós são acima do peso. Além do fato que eu passava horas usando os meios eletrônicos diariamente, o que contribuiu no meu excesso de peso na infância,” comenta.

A obesidade avançou em todas as faixas etárias, e ainda dobrou entre jovens de 18-24 anos (de 4,4%, para 8,5%). De acordo com pesquisas feitas pelo IOTF (Força Tarefa Internacional de Obesidade), 155 milhões de crianças tem número excedente de peso em todo o mundo, das quais 30 a 45 milhões são obesas. Os números refletem em pelo menos 400 mil crianças com excesso de peso crescente por ano. O estilo de vida sedentário, o consumo abusivo de alimentos industrializados e claro, a rotina de aparelhos eletrônicos, vem intensificando estes dados.

Com 13 anos, De Lucca pesava 78 kg, e já apresentava níveis de colesterol elevados em seu corpo, mas com o passar dos anos, por meio de todo o apoio psicológico da família em conjunto com os amigos, ele mudou sua forma de vida sedentária. O estudante, hoje com 16 anos e 68 kg, deu a volta por cima. Mudando sua alimentação de forma drástica e deixando um pouco de lado as redes sociais, por questões escolares.

Dados divulgados em abril deste ano pela Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) demonstraram que a obesidade cresceu 60% no país, em dez anos de pesquisa (2006 a 2016), passando de 11,8% para 18,9%, com frequência maior entre mulheres (19,6%) do que entre os homens (18,1%).

A especialista Sheila Pereira explicou que as crianças desde muito cedo já possuem smartphones entrelaçados entre as suas mãos, e esse avanço dificulta o controle dos pais no estilo de vida dos seus filhos. “Os equipamentos eletrônicos tem essa influência, eles acabam desenvolvendo o sedentarismo. As crianças deixam de brincar na rua, de fazer atividades que exijam esforço físico, ou um gasto calórico, pra ficar em frente a um videogame, ou em contato virtual nas redes”, alerta. Sheila ressalta ainda que os adultos acabam cedendo muitas vezes a isso, colocando seus filhos no domínio destes equipamentos, ao invés de colocá-los em perigo a mercê da violência que acontece na rua.
Em um levantamento recente durante a apuração desta matéria, por nossa equipe (Conteúdo Capital), constatamos que 26,7% das pessoas entrevistadas já sofreram algum tipo de problemas de saúde, porque muitos pacientes usam a internet como um lugar para fugir de situações sociais com seus familiares ou parceiros, causando transtornos como a depressão, obesidade ou a ansiedade.

Violência virtual machuca mais do que agressão física

Com a facilidade do acesso rápido às mídias sociais, uma nova e poderosa ferramenta está causando o caos aos educadores e responsáveis por essas novas gerações que a cada dia são mais precoces. O ciberbullying, como é chamado, tem como objetivo humilhar e ridicularizar pessoas nas redes sociais. Este filtro para agressões e ameaças acontece quando crianças e adolescentes enfurecidos usam seus perfis pessoais na internet, para ameaçar seus educadores, expor fotos de outras pessoas nas redes ou difamar covardemente alguém, usando o espaço virtual.

No Brasil vem aumentando casos de violência deste tipo, representando hoje um número significativo de 312 denúncias por casos referentes a vítimas do ciberbullying, que já sofreram algum tipo de agressão nas mídias sociais.
A pesquisa feita no segundo semestre de 2016 pela SaferNet (organização que defende e promove os Direitos Humanos na Internet) comparou os dados da última pesquisa que ocorreu no ano de 2015 e constatou que quase 50 pessoas a mais sofreram algum tipo de violação de informação, ou ameaças nas redes sociais.

“Já sofri, mas também não deixei de fazer”, explica E. C, estudante que preferiu não se identificar, que contou como expôs fotos em sua rede social privada de sua ex-namorada no final do ano de 2016. “Eu não pensei muito na hora, pra falar a verdade. Eu estava bravo, não entendi porque ela acabou comigo do nada, e resolvi colocar as fotos dela seminuas para alguns amigos pessoais”. Segundo ele, as fotos não chegaram na família da jovem, que na época tinha 18 anos. Ela preferiu não fazer o boletim de ocorrência contra o garoto.

Não é de hoje que essa discussão ocorre. Como o fato que chamou a atenção do Brasil na cidade de Nova Andradina (MS), onde a jovem Karina Saifer Oliveira, de 15 anos acabou cometendo suicídio no dia 7 de novembro deste ano, com medo que fossem expostas fotos suas nua pelo rapaz no qual ela teve sua primeira relação sexual, de 17 anos. A adolescente realizou o ato após sofrer um intenso processo de bullying pelos estudantes, ocasionados por conta de fotos íntimas que até o momento ninguém sabe se existem. O pior é que fotos do seu suicídio foram divulgadas em um grupo de WhatsApp, o que revoltou ainda mais os familiares.

Para esclarecer melhor sobre isso, e tentar entender o que motiva os adolescentes cometerem tamanha crueldade nas redes sociais, a nossa equipe conversou com a socióloga e pós-graduada em psicopedagogia, Glacira da Silveira, que acredita que a violência doméstica e o acelerado avanço tecnológico são os dois principais fatores para desencadear esse campo de batalhas virtuais. “As medidas: primeiro a volta dos papéis sociais da hierarquia familiar, pais, mães e filhos respeitando uns aos outros. Em segundo, a responsabilidade e participação das famílias na vida de seus filhos. Creio que o que falta ao jovem de hoje, são os limites com relação às suas vidas. Os pais precisam impor limites no que os seus filhos acessam e como eles acessam os meios midiáticos”, alerta.

Falar sobre os diferentes tipos de bullying com seus filhos desde os primeiros anos de vida das crianças é extremamente importante, por se tratar de um fenômeno crescente, desenvolvendo comportamentos negativos nos processos de aprendizagem e no convívio social. As mídias sociais e as novas tecnologias de informação e comunicação (ciberespaço), estão contribuindo para piorar o convívio deste triângulo perigoso entre adolescentes agressores, vítimas e pais.

Interligado a essas práticas compulsivas que causam danos no contexto virtual, surge outra preocupação, os cibercrimes. A prática é parecida com as do ciberbullying causadas pelos adolescentes, porém estas muitas vezes causam prejuízos financeiros a empresas, como mostra o relatório da Norton Cyber Security Insights (empresa que faz a segurança de ransomware e outras ameaças online), no ano de 2016, registrando o maior número de crimes virtuais até hoje, com um aumento de 10% em relação com o ano de 2015. Segundo a pesquisa, por aqui mais de 42 milhões de pessoas foram afetadas por esses violadores de dados. Em números, o país teve um prejuízo aproximado de 32 bilhões de reais somente no ano passado.

Em conversa realizada no início do mês de novembro pelo Conteúdo Capital, com o professor do curso de História e da Faculdade de Comunicação do Centro Universitário Ritter dos Reis (Uniritter), Walter Günther Rodrigues Lippold, ficou esclarecido como os criminosos atuam na internet e de que modo eles ganham dinheiro com esses atos. “O perfil do cibercriminoso é muito diverso, o que os une é o uso de técnicas de ciberataques para o seus fins. Estamos em um mundo capitalista movido por dinheiro e agora por criptomoedas peer to peer como o BitCoin. Temos os cibercriminosos que atacam com este objetivo e temos mercenários especialistas em ciberguerra ligados a empresas militares privados,” afirma.

Geralmente as práticas de crimes cibernéticos se enquadram naturalmente nos tipos penais. Como por exemplo, os crimes envolvendo a ameaça (artigo 147 do Código Penal), uma palavra usada de forma ofensiva, gesto, por escrito, ou qualquer outro meio simbólico de causar um mal injusto ou grave a alguém, pode gerar detenção de um à seis meses, seguido de multa; calúnia (exposto no artigo 138 do Código Penal), onde uma pessoa acusa ou difama a outra, sem fundamento lógico ou moral, proporciona detenção de seis meses a dois anos, além de multa; injúria (artigo 140), onde alguém ofende a dignidade do outro de forma injusta, podendo causar pena de seis meses, ou multa; ou o ato de falsa identidade (artigo 307 do CP), onde a pessoa usa um terceiro como sendo ela mesma para obter vantagem, em proveito próprio, causando dano a pessoa em questão, isso pode ocasionar detenção de três meses a um ano ao criminoso.

Quando casos como estes ocorrem, surgem os crimes cibernéticos, onde podem ser definidos como qualquer atividade ilegal que se usa meios tecnológicos em prol do crime. A prática dessas ofensas provoca efeitos também na esfera cível nacional, dentre elas, a obrigação de reparar os danos morais, ou materiais proporcionados pelos autores das violações causadas, conforme determina o artigo 159 do Código Civil Brasileiro.

As vítimas podem ajudar e muito na descoberta dos seus agressores, tomando medidas simples como imprimir rapidamente as páginas de onde existiram as agressões, identificarem as comunidades que são criadas com o intuito de denegrir a imagem da vítima, enfim, produzir provas da agressão virtual vem a ser o primeiro passo. Além disso, a vítima do crime pode efetuar um Boletim de Ocorrência, em alguma delegacia de polícia próxima, lembrando que em algumas cidades do país concentram delegacias especializadas em crimes cibernéticos. Embora muitos casos possam não ser solucionados, a denúncia é a melhor forma de evitar que essas práticas sejam interrompidas antes da ação dos criminosos.

Embora existam leis para coibir as condutas dos criminosos, parece que os eles não sentem medo, muito pelo contrário, os dados refletem que com o passar dos anos os hackers melhoram suas habilidades, e os consumidores permanecem estáticos. Segundo o professor Walter Lippold, no futuro a única forma de impedir que os cibercriminosos continuem no comando é uma linha de defesa do governo contra as ameaças complexas e cibernéticas da era moderna. “Assim como o crime é um produto da sociedades, desde o seu surgimento, acredito que nosso futuro é nebuloso neste sentido. Por uma lado vejo o cibercrime crescer de modo astronômico, por outro vejo o estado se tornando totalitário, e em nome de perseguir criminosos e terroristas somos interpelados a deixar nossa liberdade de lado. É uma grande contradição,” conclui.

Redes sociais como prejuízo ou lucro?

Outra realidade significativa causada pelo uso impreciso das redes sociais é o econômico. Todos os dias pessoas ingressam no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) por gastarem os limites dados pelas financeiras e não conseguirem pagar. Muitas vezes a causa deste endividamento é a vida construída na internet. As pessoas geralmente querem mostrar o quanto suas vida são interessantes e passam a gastar o seu dinheiro ou limite do cartão de crédito.

O economista Rafael Freitas Barosa acredita que os brasileiros não têm um nível social para usar as redes como negócio. “As pessoas acabam fazendo no ambiente virtual as mesmas coisas que no pessoal, abrem um negócio incerto, mas por falta de conhecimento quebram e ficam endividados,” afirma. Ele ainda apresenta dados que desencadearam a crise atual e que pode estar ligada ao uso irregular das redes sociais. “O brasileiro de uma forma geral, é um povo que foi construído ao longo de sua história através da crise. Vivemos pelo menos 100 anos de crises políticas, governamentais e econômicas durante o período que o Brasil teve realmente seu reconhecimento na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988,” esclarece. Ele acredita que a nossa nação se consolidou de forma equivocada, sucedido através da necessidade. “O povo empreende, porque precisam sobreviver” comenta.

Segundo o levantamento do Serasa Experian (empresa que faz as análises e informações para decisões de crédito e apoio a negócios do consumidor), 35 milhões de brasileiros são inadimplentes, números estes válidos em casos de dívidas atrasadas acima do valor de R$ 200,00. Na mesma pesquisa do Serasa, foi feito um mapa de inadimplências pelas regiões nacionais, mostrado em porcentagem o quanto é relativo à dívida dos brasileiros. A Região Sul tem o menor índice de pessoas que integram este grupo, com 22,4% cerca de 6,1 milhões dos 27,4% da população que residem nos três estados. A Região Norte é a que possui o maior número de inadimplência. Com 31,1% de habitantes, quase 1/3 da população está no vermelho por lá, e um dos fatores essenciais é o uso inadequado destas redes na internet.

Mesmo assim o economista Rafael tem expectativas positivas para as redes sociais com o alcance da futura geração. “O sistema educacional está com uma nova proposta que em 2018 entrará em vigor, que é a Reforma do Ensino Médio. Precisamos ensinar os nossos jovens, que as redes sociais são oportunidades, não somente diversão, mas um ambiente virtual que podem trazer lucros futuros,” conclui.

O ‎Diretor Financeiro e Administrativo do CECAD (‎Centro Educacional Cattaneo Adorno), Frederico Sotero, escreveu em seu projeto de pesquisa sobre o Futuro da Internet e das Redes Sociais no contexto global, onde conversou com diversas empresas da área da tecnologia e professores especialistas em inovação das redes de computadores, e esclareceu que para diminuir estes graves problemas causados nas pessoas, pelo mundo virtual, o futuro não será mais de redes como Facebook, onde bilhões de pessoas têm acesso ao mesmo conteúdo. Segundo ele o que estará diminuindo estes números negativos de pessoas insatisfeitas do mundo real será o Ning (plataforma online que permite a criação de redes sociais individualizadas).

Ele esclarece que no futuro cada um de nós participará de múltiplas redes sociais, uma para interagir com cada grupo social que convivemos, acabando os riscos de todos verem de forma pública os conteúdos expostos na internet. “Configurando-se o cenário de descentralização estaremos a cada dia mais conectado há pessoas semelhantes que comungam dos mesmos interesses e percepções, mas apesar disso a diversidade está garantida, pois faremos parte, simultaneamente, de dezenas de redes sociais,” conclui.

É improvável não observar os benefícios que as novas tecnologias trouxeram para a vida as pessoas, mas observando o Brasil, com uma desigualdade social assola diariamente a população, representando em números o 10° país mais desigual no mundo, segundo dados divulgados no ano passado pelo Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH), notamos que a esfera virtual pode sim se tornar ferramenta de resolução de problemas sociais, mas só a partir do momento que a sociedade extrair proveito disso.